Aventura não é improvisação

Segurança começa antes de alguém colocar o pé na trilha

Publicado em: 28/08/2026

Autoria: Marcos Silveira, tio materno da Ana Paula

Universidade Federal do Acre

Há decisões que precisam ser tomadas quando o céu ainda está azul, antes da chuva, antes do rio subir, antes de alguém escorregar, antes do primeiro pedido de socorro. Provavelmente, esse seja um dos itens mais importantes da segurança no turismo de natureza: quando a emergência começa, boa parte do trabalho já deveria estar pronta.

Uma cachoeira pode passar anos recebendo visitantes sem um acidente grave. Uma travessia pode ser feita centenas de vezes e uma trilha pode se tornar tão familiar para quem conhece o lugar, que seus perigos acabam incorporados à paisagem. E justamente aí existe uma armadilha.

O fato de ter dado certo ontem não é um protocolo para amanhã.

Como se decide se uma travessia pode permanecer acessível naquele dia?

Imagine uma trilha turística cruzando um rio. Choveu muito, a água está mais alta, a correnteza está mais forte e chegam visitantes querendo fazer a trilha. Como se decide se uma travessia pode permanecer acessível naquele dia? Existe alguém responsável por observar as condições? O que deve ser considerado? Há algum limite previamente estabelecido? E, se a decisão for não atravessar, como essa decisão é comunicada e aplicada?

Gestão de risco começa quando essas respostas existem antes da situação acontecer. Não basta perceber que algo parece perigoso. É preciso saber o que fazer diante do perigo.

“Sempre fizemos assim”

“Essa corda sempre esteve aí.”

“Nunca aconteceu nada nesse trecho.”

“Quando chove muito a gente avisa.”

Frases assim podem carregar muitos anos de experiência e experiência é valiosa, mas experiência e procedimento não são a mesma coisa. A experiência está nas pessoas e o procedimento permanece quando as pessoas mudam. A experiência diz que determinado rio costuma subir rapidamente, enquanto o procedimento estabelece o que fazer quando isso acontece. A experiência lembra que já houve um acidente e o procedimento transforma o acidente em aprendizado.

Um alerta deveria deixar alguma coisa além da lembrança

Às vezes, um lugar dá sinais antes que aconteça algo mais grave. Pessoas ficam ilhadas depois de uma subida repentina do rio, um resgate precisa ser mobilizado e uma travessia que parecia possível deixa de ser em poucos minutos. Não é um exemplo distante, aconteceu no lugar que nos levou a escrever esta série.

Mais do que apenas um susto, o incidente poderia ter se tornado uma oportunidade de aprendizado, ter deixado perguntas. O que aconteceu? Era possível perceber o risco? O que funcionou? O que precisa mudar?

Incidentes, resgates e acidentes formam uma espécie de memória do lugar. Quando essa memória é registrada e utilizada, cada episódio pode ajudar a evitar o próximo. Quando não é, o visitante seguinte pode chegar ao mesmo ponto sem conhecer nada sobre o que aconteceu antes.

Também é preciso saber quem entrou — e quem voltou

Há uma dimensão da segurança que dificilmente aparece nas fotografias de uma trilha. Um nome, um horário, um telefone podem parecer pouco diante da grandiosidade de uma cachoeira. Mas imagine alguém sair para uma trilha à tarde. Anoitece. A pessoa não retorna. Quem percebe?

Essa pergunta ganhou outro significado para nós depois do acidente de Ana Paula. Não se trata de vigiar visitantes ou retirar sua autonomia. Trata-se simplesmente de existir algum mecanismo capaz de perceber que alguém saiu e não voltou. E, se isso acontecer, saber o que fazer.

Uma ficha de entrada não salva ninguém sozinha. Mas informação, no momento certo, pode mudar uma emergência.

O plano que ninguém deseja usar

Há coisas que nenhum destino turístico deseja colocar em prática: primeiros socorros. resgate. Busca e evacuação. É por isso que elas precisam ser pensadas antes. Se alguém cair, como pedir ajuda? Se não houver sinal de celular, o que fazer? Como informar aos socorristas onde está a vítima? Como retirar alguém de um ponto de difícil acesso?

São perguntas desconfortáveis, mas uma emergência é o pior momento possível para fazê-las pela primeira vez. Porque, numa emergência, minutos passam a importar.

Preparar-se também significa dizer “hoje, não”

Com a morte de Ana Paula, começamos a conhecer uma linguagem que antes nos parecia distante: gestão de riscos, critérios de operação, monitoramento, plano de emergência, registro de incidentes. Aos poucos percebemos que, por trás dessas expressões, existe uma ideia bastante simples: não improvisar diante do que pode ser previsto.

Preparar-se para a chuva antes da chuva, para a cheia antes da cheia, para o visitante que não retorna antes de perceber sua ausência, para a emergência antes da emergência. E preparar-se também para uma decisão difícil: hoje, não! Isso não diminui a aventura. Ao contrário. Permite que ela continue sendo aquilo que deveria ser: encontro, descoberta, encantamento, frio na barriga, histórias para contar.

No primeiro texto desta série falamos de lugares que matam sem querer matar. Neste, a pergunta é mais simples: quanto de uma tragédia pode começar a ser evitado muito antes de ela acontecer? No próximo, daremos mais um passo. Uma paisagem pode simplesmente existir, mas, quando ela começa a ser divulgada, organizada e preparada para receber visitantes, algo muda. O que acontece quando uma paisagem vira um atrativo turístico?

A Associação Férias Vivas manifesta sua solidariedade aos familiares, amigos e pessoas próximas de Ana Paula Silveira Cardoso, desejando força e acolhimento neste momento de profunda dor. Porque, no fim, a maior medida de sucesso de qualquer operação turística não está apenas na experiência proporcionada ao visitante, mas na certeza de que ele retornará para casa em segurança.

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INFORMAÇÃO SALVA VIDAS

A Associação Férias Vivas criou um portfólio de ações voltadas para a disseminação do turismo consciente. No site da ONG  é disponibilizada uma biblioteca dedicada ao tema, com dicas de prevenção e segurança, artigos de gerenciamento de risco, análises sobre a legislação vigente, assim como orientações jurídicas para as famílias vítimas de acidentes.

Recentemente, lançamos o aplicativo Eu Vivi Esta Experiência, uma ferramenta colaborativa que melhora a experiência dos turistas nas viagens e contribui para o aumento da segurança das atividades turísticas.