E quando alguma coisa dá errado?
Na natureza, prevenir é fundamental, mas também é preciso estar preparado para o momento em que a prevenção não basta.
Publicado em: 08/09/2026
Autoria: Marcos Silveira, tio materno da Ana Paula
Nos textos anteriores falamos sobre prevenção: conhecer o lugar, reconhecer seus riscos, orientar quem chega e estabelecer limites. Tudo isso reduz a possibilidade de um acidente, mas não a elimina. Alguém pode escorregar, o rio pode subir rapidamente, uma pessoa pode se machucar, perder o caminho ou não voltar no horário esperado. A partir daí, o problema muda. É preciso perceber que alguma coisa aconteceu e saber o que fazer.
O primeiro socorro começa antes do resgate
Quando pensamos em uma emergência, lembramos dos bombeiros, da ambulância, às vezes de um helicóptero. Só que o resgate começa antes da chegada de qualquer equipe. Primeiro, alguém precisa perceber que há um problema.
Se uma pessoa entrou numa trilha e não voltou, alguém sabe que ela deveria ter voltado? Sabe a hora em que saiu, o percurso que faria e quantas pessoas estavam juntas? Depois vem outra dificuldade: pedir ajuda. Em muitos lugares não há sinal de telefone. Também pode ser difícil explicar onde ocorreu o acidente ou indicar o melhor acesso para quem vai prestar o socorro. São questões simples enquanto escritas numa página. Diante de uma emergência, deixam de ser.
Há riscos evidentes numa cachoeira: correnteza, pedras molhadas, desníveis. Outros ficam escondidos na rotina. Ninguém percebe a falta de controle de entrada e saída enquanto todos retornam. A dificuldade de comunicação pouco importa até alguém precisar pedir socorro. O acesso complicado parece apenas parte da trilha até ser necessário retirar uma pessoa ferida dali. São ameaças ocultas. Elas não provocam necessariamente o acidente. Podem, porém, mudar o que acontece depois dele.
Quando cada minuto muda de tamanho
Nossa família aprendeu isso da pior maneira. Na tarde daquele sábado, Ana Paula e Ana Carolyne sofreram uma queda durante a travessia do rio. Ana Carolyne sobreviveu, gravemente ferida. Passou a noite naquela área e foi encontrada na manhã seguinte, durante a ronda de um funcionário.
Durante aquelas horas, acreditava-se que as duas estivessem resguardadas na barraca.
Desde então, uma pergunta não me sai da cabeça: como um atrativo de natureza percebe que alguém que saiu não voltou? Enquanto as pessoas entram, fazem o passeio e retornam normalmente, talvez ninguém pense muito nisso. O problema aparece quando uma delas não retorna. Nesse momento, saber quem saiu, a que horas, para onde foi e quando deveria voltar deixa de parecer burocracia. Vira informação necessária. E o tempo já está correndo.
Estar preparado é cuidar
Um plano de emergência não impede a chuva, não evita uma queda nem reduz a força de um rio. Sua função é mais concreta: evitar que as primeiras decisões sejam tomadas no susto.
Quem chama os bombeiros? Há sinal de telefone? Se não houver, qual é a alternativa? Por onde a equipe de socorro consegue entrar? Alguém conhece o caminho até o ponto do acidente? Existe um local definido para encontrar os socorristas? Quem trabalha ali sabe o que fazer enquanto a ajuda não chega?
Nenhum pequeno atrativo precisa manter uma equipe profissional de resgate à espera de um acidente. Isso seria pouco realista. Mas quem recebe pessoas em uma área de natureza precisa pensar em como proceder se alguém se ferir ou desaparecer.
Essa preparação quase não aparece. O visitante provavelmente nunca saberá se existe um plano, se os telefones de emergência estão disponíveis ou se alguém sabe indicar o acesso mais rápido para uma equipe de resgate. E tudo bem que seja assim, o importante é que, quando for necessário, alguém saiba o que fazer.
A memória também pode salvar
Depois de um acidente, perguntamos por quê. Há outra pergunta igualmente necessária: O que aprendemos? Um resgate, sete pessoas ilhadas, uma queda, um rio que subiu de repente. Cada episódio revela alguma coisa sobre aquele lugar. Pode mostrar que determinado trecho se torna perigoso depois de muita chuva. Que o acesso dificulta um resgate. Que faltou informação. Que uma rotina precisa mudar. Esse conhecimento só serve para alguma coisa se permanecer.
Registrar um incidente permite rever uma travessia, mudar um percurso, melhorar uma orientação, estabelecer um limite ou criar uma rotina para saber quem entrou e quem voltou. Quando isso acontece, o que foi vivido começa a mudar a forma como o lugar recebe as pessoas.
Ana não pode voltar daquele rio. Nenhuma mudança feita depois poderá alterar aquela tarde. Outras pessoas, porém, continuarão chegando a rios, cachoeiras e trilhas. Irão atrás da mesma coisa que levou Ana a tantos lugares: beleza, aventura, silêncio, fotografia, descoberta. Em algum momento, alguma coisa voltará a dar errado.
Não conseguiremos eliminar todo risco. A questão nunca foi essa. A questão é o que fazemos com aquilo que os acidentes nos ensinam. Uma tragédia deixa um aprendizado quando muda uma conduta, corrige uma fragilidade ou faz alguém agir mais cedo da próxima vez.
É aí que pode começar um legado: quando aquilo que aprendemos com quem não voltou muda a maneira de cuidar de quem vem depois. Algumas mudanças só aparecem depois que alguma coisa acontece. Outras alcançam lugares que nem faziam parte daquela história.
É sobre o que a história de Ana Paula pode mudar que falaremos no próximo texto.
A Associação Férias Vivas manifesta sua solidariedade aos familiares, amigos e pessoas próximas de Ana Paula Silveira Cardoso, desejando força e acolhimento neste momento de profunda dor. Porque, no fim, a maior medida de sucesso de qualquer operação turística não está apenas na experiência proporcionada ao visitante, mas na certeza de que ele retornará para casa em segurança.
INFORMAÇÃO SALVA VIDAS
A Associação Férias Vivas criou um portfólio de ações voltadas para a disseminação do turismo consciente. No site da ONG é disponibilizada uma biblioteca dedicada ao tema, com dicas de prevenção e segurança, artigos de gerenciamento de risco, análises sobre a legislação vigente, assim como orientações jurídicas para as famílias vítimas de acidentes.
Recentemente, lançamos o Aplicativo EU VIVI, uma ferramenta colaborativa que melhora a experiência dos turistas nas viagens e contribui para o aumento da segurança das atividades turísticas.


