Lugares que matam sem querer matar

Uma reflexão sobre aventura, natureza e segurança no turismo


Publicado em: 25/08/2026

Autoria: Marcos Silveira – Universidade Federal do Acre

Há uma sede de aventura que parece ter crescido entre nós.

Queremos subir montanhas, atravessar rios, encontrar cachoeiras escondidas, caminhar por trilhas no meio da floresta. Queremos conhecer lugares que ainda conservam alguma aparência de mundo intocado. E, por algumas horas, experimentar a sensação de que deixamos para trás as cidades, as estradas e a vida previsível.

O Brasil oferece tudo isso como poucos países. Temos serras, cânions, rios, cavernas, florestas e cachoeiras de uma beleza difícil de traduzir em fotografias. E talvez justamente por serem tão belos esses lugares produzam uma ilusão perigosa: a de que aquilo que é natural é também seguro. Não é!

A natureza não organiza suas paisagens para receber visitantes. Um rio não sabe que virou atração turística. Uma cachoeira não sabe que apareceu no Instagram. Uma pedra molhada não distingue quem conhece aquele lugar de quem chegou ali pela primeira vez. A correnteza não sabe que existe uma trilha, uma pousada, uma taxa de visitação ou uma página na internet convidando pessoas a conhecê-la.

Há lugares que matam sem querer matar.

E é justamente aí que começa uma responsabilidade que não pertence à natureza. Quando uma paisagem deixa de ser apenas uma paisagem e passa a ser apresentada ao público como destino turístico, alguma coisa muda.

Pessoas são convidadas a chegar. Criam-se acessos. Abrem-se trilhas. Surgem anúncios, fotografias, avaliações, roteiros. Às vezes há cobrança, estacionamento, estruturas de apoio. O lugar ganha um nome conhecido, aparece nas redes sociais e começa a fazer parte dos lugares que queremos conhecer. A aventura permanece.

Mas o risco já não pode permanecer completamente entregue ao acaso. Isso não significa transformar cachoeiras em parques urbanos, colocar corrimões em todas as montanhas ou eliminar da natureza aquilo que justamente nos fascina nela. Risco zero não existe. Existe, porém, uma diferença enorme entre o risco que faz parte da aventura e aquele que poderia ser conhecido, comunicado ou reduzido.

Às vezes, a diferença está numa informação. Numa sinalização. Na observação das condições daquele dia. Na percepção de que o rio de hoje não é o mesmo rio de ontem. Ou simplesmente na decisão mais difícil de todas: “Hoje, não.” Talvez este seja um dos grandes desafios do turismo de natureza brasileiro. Aprender que cuidar da segurança não significa retirar a aventura. Significa permitir que ela termine como deveria terminar: em uma história para contar quando se volta para casa.

Ana Paula não voltou.

Em 25 de julho de 2026, Ana Paula Silveira Cardoso estava no Salto das Orquídeas, em Sapopema, no Paraná. Ela havia saído em busca daquilo que leva milhares de brasileiros às nossas paisagens naturais: beleza, descoberta, aventura. Durante o percurso em direção a um mirante, houve um acidente na travessia de um rio. Ana Paula foi levada pela correnteza. Sua companheira de viagem sobreviveu. Ana Paula, não!

Para sua família, o Salto das Orquídeas deixou de ser apenas uma bela paisagem. E, desde aquele dia, uma pergunta começou a crescer junto com a dor. Não é uma pergunta sobre a força da natureza. Sabemos que rios têm correnteza. Que pedras escorregam. Que chuvas modificam paisagens. Que cachoeiras e montanhas envolvem riscos.

A pergunta é outra: Quando convidamos pessoas a entrar em um ambiente naturalmente perigoso, quanto desse perigo temos o dever de conhecer, comunicar e reduzir?

Não temos ainda todas as respostas sobre o que aconteceu naquele dia. E talvez seja justamente por isso que precisamos fazer as perguntas. Não apenas por Ana Paula. Porque amanhã outra pessoa colocará uma mochila nas costas, pegará uma estrada e seguirá uma placa, uma fotografia ou uma indicação encontrada na internet em direção a alguma cachoeira brasileira. Outro pai esperará uma mensagem dizendo que a filha chegou bem. Outra família confiará que aventura significa risco — mas não abandono à própria sorte.

O Salto das Orquídeas é apenas um entre tantos lugares extraordinários que o Brasil oferece. E a história de Ana Paula talvez possa nos ajudar a olhar para todos eles de outra maneira. Não com medo. Não deixando de viajar. Não deixando de buscar aquilo que existe de belo, selvagem e imprevisível na natureza. Mas compreendendo que aventura e segurança não são opostos.

A natureza não promete que voltaremos para casa. Mas, quando transformamos a natureza em destino turístico, talvez essa deva ser a nossa maior preocupação.

Ana Paula saiu de casa procurando beleza e aventura.Como milhares de brasileiros fazem todos os dias. Sua história nos deixa uma pergunta que não pertence apenas à nossa família: quando transformamos a natureza em destino turístico, estamos fazendo tudo o que podemos para que as pessoas voltem para casa?

A Associação Férias Vivas manifesta sua solidariedade aos familiares, amigos e pessoas próximas de Ana Paula Silveira Cardoso, desejando força e acolhimento neste momento de profunda dor. Porque, no fim, a maior medida de sucesso de qualquer operação turística não está apenas na experiência proporcionada ao visitante, mas na certeza de que ele retornará para casa em segurança.

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INFORMAÇÃO SALVA VIDAS

A Associação Férias Vivas criou um portfólio de ações voltadas para a disseminação do turismo consciente. No site da ONG  é disponibilizada uma biblioteca dedicada ao tema, com dicas de prevenção e segurança, artigos de gerenciamento de risco, análises sobre a legislação vigente, assim como orientações jurídicas para as famílias vítimas de acidentes.

Recentemente, lançamos o aplicativo Eu Vivi Esta Experiência, uma ferramenta colaborativa que melhora a experiência dos turistas nas viagens e contribui para o aumento da segurança das atividades turísticas.