Quando a prevenção precisa evoluir:
Reflexões sobre o acidente nas Cataratas do Iguaçu


Publicado em: 30/07/2026

Autoria: Sabrina Saltori

A morte do turista holandês Mark Lensink, de 25 anos, em 28 de julho de 2026, durante um passeio de barco nas Cataratas do Iguaçu, chocou o país. Ele estava acompanhado da noiva e de familiares quando a embarcação virou. Mesmo resgatado e usando colete salva-vidas, o jovem sofreu uma parada cardiorrespiratória e não sobreviveu.

Por trás dos fatos, há uma família devastada e uma vida interrompida. Na Associação Férias Vivas, a solidariedade às vítimas é o ponto de partida, mas a compaixão precisa vir acompanhada de uma cobrança firme: “por que uma atividade turística comercial terminou em morte?”

Risco inerente não é justificativa para mortes

O passeio do Macuco Safari é uma das atrações mais tradicionais do Brasil, opera sob concessão federal, possui documentação em dia e exibe a certificação ABNT NBR ISO 21101, voltada à gestão de segurança. No entanto, é preciso ser claro: certificações e históricos de sucesso não anulam uma falha fatal.

Atividades em ambientes naturais envolvem riscos inerentes, como correntes de água e variações climáticas. Contudo, o papel da gestão de riscos não é apenas tentar evitar incidentes, mas garantir que, se um incidente ocorrer, ele não seja fatal.

Um viramento de barco pode ser um risco previsto na operação. A morte do passageiro, não.

Se o visitante estava usando os equipamentos exigidos e a equipe realizou o resgate, por que o resultado foi uma parada cardiorrespiratória irreversível? Onde falharam as barreiras de sobrevivência? A aceitação passiva do risco não pode servir de escudo para mascarar lacunas operacionais.

As investigações precisam ir além do óbvio

As apurações da Marinha do Brasil e da Polícia Civil são indispensáveis para determinar as causas do tombamento. Porém, uma investigação de segurança eficiente não deve se limitar a procurar um “culpado” pontual ou classificar o caso como uma “fatalidade isolada”.

É preciso fazer as perguntas duras:

– Os procedimentos de resgate de passageiros sob a embarcação foram ágeis o suficiente?

– O tempo de resposta para os primeiros socorros e manobras de ressuscitação foi compatível com o nível de risco da atividade?

– O dimensionamento da equipe e das embarcações de apoio atendeu aos cenários mais críticos de emergência?

– Enquanto o setor se agarrar a históricos passados para demonstrar segurança, perderá a oportunidade de encarar a realidade: a segurança de ontem não garante a vida de hoje.

Segurança não se faz com complacência

Na gestão de riscos, entende-se que acidentes graves resultam de uma cadeia de falhas. Quando todas as camadas de proteção falham a ponto de causar um óbito, o sistema inteiro precisa ser questionado e revisado.

O aprendizado com este caso precisa ser rigoroso e transparente. Ele deve se desdobrar em mudanças profundas nos protocolos de resgate, na exigência dos equipamentos e na capacitação de resposta a emergências em águas rápidas, não só no Macuco Safari, mas em todo o turismo de aventura nacional.

Segurança é feita de múltiplas barreiras

A prevenção começa muito antes do embarque. Planejamento, análise das condições ambientais, manutenção das embarcações, capacitação das equipes e protocolos de emergência atuam em conjunto para reduzir riscos.

Certificação não significa risco zero

Normas técnicas e sistemas de gestão fortalecem a segurança das operações, mas nenhuma atividade realizada em ambiente natural está completamente livre de riscos. A melhoria contínua faz parte da gestão da segurança.

Investigar também é prevenir

Toda investigação busca compreender os fatores que contribuíram para um acidente. As conclusões permitem revisar procedimentos, aperfeiçoar treinamentos e fortalecer a cultura de prevenção em todo o setor.

O compromisso inegociável com a vida

A Associação Férias Vivas reitera seus sentimentos à família de Mark Lensink. No entanto, o melhor tributo à sua memória e o único caminho para proteger futuros leitores e turistas é a recusa em tratar a morte como um encargo inevitável do turismo de aventura.

O turismo só é viável quando a vida é tratada como um valor inegociável. A maior medida de sucesso de qualquer operação não é o volume de clientes atendidos, nem certificado de segurança na parede, mas a certeza absoluta de que todos os visitantes voltarão para casa vivos.

A Associação Férias Vivas manifesta sua solidariedade aos familiares, amigos e pessoas próximas de Mark Lensink, desejando força e acolhimento neste momento de profunda dor. Porque, no fim, a maior medida de sucesso de qualquer operação turística não está apenas na experiência proporcionada ao visitante, mas na certeza de que ele retornará para casa em segurança.

0 Anos
de atuação
0
Pesquisadores e voluntários
+0
Casos acompanhados

INFORMAÇÃO SALVA VIDAS

A Associação Férias Vivas criou um portfólio de ações voltadas para a disseminação do turismo consciente. No site da ONG  é disponibilizada uma biblioteca dedicada ao tema, com dicas de prevenção e segurança, artigos de gerenciamento de risco, análises sobre a legislação vigente, assim como orientações jurídicas para as famílias vítimas de acidentes.

Recentemente, lançamos o aplicativo Eu Vivi Esta Experiência, uma ferramenta colaborativa que melhora a experiência dos turistas nas viagens e contribui para o aumento da segurança das atividades turísticas.

Ir ao Topo