O efeito Ana Paula
Há histórias que não terminam no lugar onde aconteceram.
Publicado em: 24/09/2026
Autoria: Marcos Silveira, tio materno da Ana Paula
Quando iniciamos essa série de textos, queríamos compreender uma história. Queríamos entender como lugares de natureza se transformam em atrativos turísticos, como riscos são percebidos, como decisões são tomadas e o que acontece quando alguma coisa dá errado.
No centro de tudo estava Ana Paula e, aos poucos, percebemos que a sua história não permanecia apenas no Salto das Orquídeas. Ela começava a chegar a outros lugares.
Em Londrina, o Parque Municipal Arthur Thomas recebeu novas placas de sinalização e novas orientações de segurança. Segundo reportagem do Meio Dia Paraná¹, a instalação das estruturas pela Secretaria Municipal do Ambiente começou após a tragédia ocorrida com “uma visitante em Sapopema”. As medidas procuram orientar a circulação nas trilhas e nas áreas próximas à cachoeira e reforçar a localização dos visitantes dentro do parque.
É uma relação concreta. Uma jovem morreu em um atrativo natural de uma pequena cidade do Paraná. A história foi conhecida, perguntas foram feitas e a mais de cem quilômetros dali, outro lugar começou a rever a maneira de orientar os seus visitantes.
Algumas mudanças começam assim, não necessariamente com grandes programas ou novas leis. Às vezes começam quando alguém olha para o que aconteceu em outro lugar e se pergunta: Isso poderia acontecer aqui?
A pergunta é simples. A resposta pode mudar muita coisa. Pode fazer alguém percorrer uma trilha procurando os pontos onde um visitante pode se perder. Pode levar à instalação de uma placa onde antes não havia nenhuma. Pode fazer uma equipe discutir o que faria se alguém não retornasse no horário previsto. Pode levar à revisão do sistema da corda de apoio, de uma escada, de uma travessia, de um protocolo.
Nenhuma dessas medidas elimina o risco. Quem entra em uma floresta, atravessa um rio ou se aproxima de uma cachoeira sabe — ou deveria saber — que a natureza não é um ambiente controlado. Chove e o rio sobe. Uma pedra fica escorregadia, um galho cai e uma pessoa pode tropeçar.
Mas há uma diferença importante entre o risco que pertence à natureza e aquele que podemos reduzir por meio de informação, planejamento e cuidado. É nesse espaço que podemos agir.
Depois da morte de Ana, o próprio Salto das Orquídeas também reabriu com mudanças. Anunciaram acompanhamento de guia, exigência de calçado fechado e antiderrapante, limitação do tempo de permanência e ampliação do número de monitores.
Essas mudanças não apagam o que aconteceu. Também não constituem, por si mesmas, reconhecimento de responsabilidade pelo acidente. Elas mostram outra coisa: depois do acidente, algumas regras mudaram.
Preferíamos ter Ana.
Preferíamos que nenhuma dessas reflexões tivesse sido necessária. Mas não podemos escolher o que aconteceu em 25 de julho de 2026. Podemos escolher o que fazer com aquilo que aprendemos depois.
É justamente aí que a história de uma pessoa começa a ultrapassar os limites de sua própria vida. Chamamos isso, entre nós, de Efeito Ana Paula, não como campanha ou slogan. É apenas uma maneira de dar nome a algo que começamos a perceber: quando a história de Ana faz alguém olhar novamente para uma trilha, rever um procedimento, instalar uma placa, substituir um equipamento ou perguntar como saberá se todos os visitantes voltaram, alguma coisa se moveu.
Esse movimento não precisa acontecer somente no Paraná. O Brasil é repleto de cachoeiras, cânions, rios, montanhas e trilhas transformados em destinos de aventura. Muitos são pequenos empreendimentos, outros estão dentro de parques públicos, propriedades particulares ou comunidades. Cada lugar tem sua realidade.
Mas uma pergunta cabe em todos eles: as pessoas que entram estão encontrando um lugar mais preparado para recebê-las e para ajudá-las quando alguma coisa dá errado?
O legado de Ana começa por essa pergunta e, talvez, o efeito Ana Paula também aconteça de outra maneira, mais silenciosa. Na família que precisou aprender a viver com uma cadeira vazia. Nos amigos que ainda encontram Ana em uma fotografia, numa lembrança inesperada, numa viagem que ela adoraria fazer. Nos colegas que continuam falando dela. E até em pessoas que nunca a conheceram, mas que conheceram a sua história e, de algum modo, foram tocadas por ela.
Para quem a amava, nenhuma mudança em uma trilha, nenhuma nova regra e nenhum aprendizado devolverá Ana. Preferíamos ter Ana, precisamos dizer isso.
Seguir vivendo não significa deixá-la para trás. É justamente o contrário. Há pessoas que continuam conosco naquilo que modificaram em nossa maneira de olhar o mundo. Ana pode continuar nas histórias contadas sobre ela, nas fotografias, no amor de sua família e de seus amigos — e também em cada cuidado que sua história ajudar a produzir.
Por isso, este último texto é também para quem ficou. Para a família, os amigos, os colegas e todos aqueles que acompanharam essa história: que a saudade possa, aos poucos, encontrar lugar ao lado das boas lembranças. Que falar de Ana não seja apenas falar do dia em que ela partiu, mas também dos quase trinta anos em que esteve aqui — das viagens, das aventuras, das amizades, das festas, das apresentações, dos almoços, dos cafés (com propósito), dos jantares, das fotografias, da curiosidade, do papo cult, do afeto e da vontade de conhecer o mundo.
E para quem conheceu Ana somente depois de sua partida, há uma forma simples de guardar alguma coisa dessa história: cuidar melhor de quem vem depois.
Se uma pergunta for feita antes de alguém entrar numa trilha, se uma corda for substituída no momento certo, se uma travessia for fechada quando o rio subir, se alguém perceber mais cedo que um visitante não voltou, se outro atrativo revisar seus procedimentos porque ouviu falar de Ana, então alguma coisa terá atravessado a ausência.
Não é consolo suficiente e pode ser que nunca seja. O que Ana Paula deixou em nós é legado. E quando a sua história ultrapassa a saudade de quem a conheceu e ajuda a mudar a forma como outras pessoas cuidam de quem vem depois, isso é o Efeito Ana Paula.
1 Referência mencionada no texto: reportagem do Meio Dia Paraná/Globoplay sobre mudanças no Parque Municipal Arthur Thomas, Londrina.
A Associação Férias Vivas manifesta sua solidariedade aos familiares, amigos e pessoas próximas de Ana Paula Silveira Cardoso, desejando força e acolhimento neste momento de profunda dor. Porque, no fim, a maior medida de sucesso de qualquer operação turística não está apenas na experiência proporcionada ao visitante, mas na certeza de que ele retornará para casa em segurança.
INFORMAÇÃO SALVA VIDAS
A Associação Férias Vivas criou um portfólio de ações voltadas para a disseminação do turismo consciente. No site da ONG é disponibilizada uma biblioteca dedicada ao tema, com dicas de prevenção e segurança, artigos de gerenciamento de risco, análises sobre a legislação vigente, assim como orientações jurídicas para as famílias vítimas de acidentes.
Recentemente, lançamos o Aplicativo EU VIVI, uma ferramenta colaborativa que melhora a experiência dos turistas nas viagens e contribui para o aumento da segurança das atividades turísticas.
